terça-feira, 24 de julho de 2018

Paralelas que não se cruzam

Há três meses atrás re-re-re-re-empacotei minha (que agora virou nossa) mudança e me estabeleci na minha cidade natal (mais uma vez). Na mesma semana que vim morar no prédio, olhei pela sacada e vi uma mudança sendo descarregada em uma casa no terreno aqui ao lado. Lembro que o mais chamou a atenção na mudança foi que tinha dois itens bem aleatórios carregados naquele caminhão: um trator e um carro lá dentro.
Embora eu more no interior de Santa Catarina e aqui trator seja uma coisa comum, nunca tinha visto numa casa "na cidade" esse veículo, pois geralmente eles são vistos mais na área rural.
De qualquer forma, alguns dias depois deste fatídico dia, meus tios que moram aqui no bairro há muito tempo contaram que esta família foi morar em outro Estado e retornou para sua cidade natal também, de mala E TRATOR!
Desde então, todas as manhãs, ouvia o senhorzinho dono do trator ligando o veículo, andando com ele para frente, para atrás e depois desligava. Era um rito diário, e mesmo que não conhecesse a pessoa, sabia que ela estava ali. Vez ou outra passava pela frente da casa com minha cachorrinha e via várias bandejas de mudinhas de verduras... Então subentendi que ele trabalhava com isso, mas eram pensamentos abstratos sobre a "vida do vizinho do trator".
Na semana passada eu passei por um pequeno procedimento cirúrgico em uma cidade próxima, e ao retornar, meu namorado me contou que o "vizinho do trator" havia subitamente falecido naquele dia. Havia muitas pessoas na casa que era dele falando sobre o ocorrido: ele estava em seu trabalho plantando as mudinhas com o neto, quando sua missão aqui na Terra (e também na terra) se findou. 
Engraçado que ao entrar no centro cirúrgico, naquele mesmo dia, me passou pela cabeça que tudo poderia terminar ali. Éramos duas vidas paralelas, separadas por um limite de terreno... Ambos voltamos para nossa terra nos mesmos dias, precisamos de "socorro" no mesmo dia e apenas um seguiu a viagem. A vida e a morte tem destas peças.
Agora, as manhãs silenciosas estão com um ar de "pesar" vindo do terreno ao lado.