Nessa vida sentada no banquinho da roda-gigante, há dias em que nada faz sentido e há dias em que você quase contempla a paisagem completa estampada no quebra-cabeças a sua frente. Hoje foi um dos dias no topo.
Há cerca de seis meses fui uma das contempladas com o desemprego no Brasil e estava na reta final do mestrado. Como nos primeiros três semestres do mestrado não dei conta de ser nenhuma aluna exemplar tentando conciliar o trabalho e os estudos, resolvi empacotar minha mudança e voltar ao aconchego do lar dos meus pais para terminar com calma o mestrado e economizar o seguro-desemprego. De início o retorno foi quase imperceptível, passei dias trancafiada no quarto me resolvendo com a estatística e muitos artigos... O aconchego da minha casa era uma recompensa a cada pausa. Mas depois que a correria passou, comecei a me sentir em um imenso vazio. Toda vez que parava para pensar sobre meu futuro, parecia que eu estava desperdiçando meu tempo ao voltar pra casa.
Foi então que comecei a pensar sobre o processo inverso.
Aos 17 anos sai de casa para cursar minha graduação, fiquei quase cinco anos visitando meus pais a cada mês ou simplesmente quando dava. Quando voltei para fazer o estágio final na minha cidade, estava afundada em depressão... Foi a época em que percebi que as festas e os amigos da graduação não poderiam durar para sempre. Então consegui meu primeiro emprego na cidade próxima dos meus pais e passei quase três anos entre idas e vindas aos finais de semana, chegando para o churrasco e partindo antes da depressão do fim da tarde do domingo. Mas eu era uma visita. Quando aterrissei novamente em casa, no ano passado, eu voltei para vivenciar todos os problemas que uma visita não encara.
Minha avó (que sempre morou no terreno ao lado) passava por um momento muito delicado, sua saúde estava acometida e o mal de Alzheimer estava piorando. Entre uma escapada e outra para ver se ela estava acordada, pude vivenciar seus raros momentos de lucidez e dividir com ela uma ou outra cuia de chimarrão. Teve um dia que ficamos sozinhas e ela me pediu para rezar com ela, foi quando percebi que a senhora de 85 anos um pouco esquecida à minha frente tinha uma fé inabalável na vida e em um ser superior. Quando ela nos deixou nesse plano, um pouco antes de defender minha dissertação, percebi o quanto tinha sido sortuda em acompanhar seus últimos meses de vida e poder compartilhar bons momentos antes da partida.
Meus pais também já não são mais aquele poço de juventude...Mas acho incrível a alegria deles em ver a casa cheia. Mesmo com todas as dificuldades, são sempre os mais motivados em dizer que as coisas vão melhorar, que vai dar tudo certo. Mesmo com um mínimo de estudo, sempre incentivaram eu e minhas duas irmãs a estudar e batalhar por um futuro melhor. Acho o máximo quando contam cheios de orgulho que as três filhas são graduadas e duas delas já são até mestres. E também percebo que sou muito sortuda em ter eles como pais nesses pequenos momentos.
No fim da história, defendi minha dissertação na semana passada. Foi horrível. E também ainda não encontrei emprego. Mas ainda assim percebo o quão sortuda sou por essa escolha nada magnífica na minha vida (de fazer o mestrado) acabou me trazendo de volta pra casa número 144.